O sumo da laranja. Uma maravilhosa viagem pela obra de Zeca Pagodinho, na companhia de seus parceiros, embelezada por interpretações surpreendentes, é o que o Sambabook (Musickeria/Zeca Pagodiscos) desse imenso artista popular nos oferece.
Acompanhado de sua fiel banda, regida por Paulão 7 Cordas e reforçada com participações pontuais de Zeca do Trombone, Hamilton de Holanda, Roberto Marques, Mauro Diniz e Zeca da Cuíca, nosso herói pouco canta (só aparece na última das 25 músicas, “Camarão
que dorme a onda leva”, dele, de Arlindo Cruz e Beto Sem Braço, ainda assim dividindo a cena com todos os convidados), e brilha mesmo é no papel de narrador. No DVD que integra o projeto grandioso (que tem ainda CDs, fichário de partituras, discobiografia da Editora Sonora, rádio web, portal e aplicativos para smartphones), Zeca está descalço, de bermuda, óculos, sentando num banquinho, apresentando as canções, contando como foram feitas, num mergulho profundo nunca antes feito em seu cancioneiro, que resulta numa exposição inédita do DNA de sua música, em tarefa cumprida pelo próprio autor.
Assim, a gente fica sabendo que “Bagaço da laranja”, por exemplo, dele e de Arlindo Cruz, só ganhou um terceiro parceiro (aliás, parceira) porque Jovelina Pérola Negra, ao gravá-la, danou a improvisar, no estúdio, versos que deram o acabamento final ao partido alto. E mais: que foi feita depois de uma manhã de trabalho pesado, em que Zeca ajudou Arlindo a levar sua mudança de Marechal Hermes para o Engenho de Dentro Surpreendente, com o perdão da repetição do adjetivo, o DVD começa com Zeca batendo cabeça para o insondável que rege os poetas, sobretudo os do samba. Ele diz, antes de Gil cantar barbaramente (com sotaque baiano), na faixa “Não sou mais disso” (parceria com Jorge Aragão): “ Não desprezo a rua, a madrugada, os vagabundos. Porque é do submundo que tirei as minhas conclusões”. Na faixa 2, a beleza da voz se funde à da cantora, e Roberta Sá faz uma interpretação madura de “Mutirão de amor”, samba que tocou menos do que devia nas rádios, parceria do cara com Jorge Aragão e Sombrinha.
“Eu vou botar teu nome na macumba” (Zeca e Dudu Nobre) ganha uma das mais surpreendentes (olha o adjetivo aí de novo) interpretações do Sambabook, de Mumuzinho, menino formado em artes cênicas no Nós do Morro, da favela carioca do Vidigal, que atuou em “Cidade de Deus” e “Tropa de elite”, e ganhou visibilidade como vocalista de apoio de Dudu Nobre. Aí vem a faixa 4, com mais surpresa. Djavan canta lindamente, por escolha própria, como conta nos extras do DVD, “Judia de mim”, de Zeca e do compositor maior Wilson Moreira. E lá vem Zeca de novo para contar como nasceu “Dor de amor”: “Quando (o compositor) Cláudio Camunguelo me apresentou ao Arlindo, a gente passou a andar muito junto. A gente tinha a mesma história, assim de sofrimento (de amor). Uma vez, às 6h da manhã, sentados num meio-fio em Madureira, a gente, bêbado, fez esse samba. Dor de amor é difícil curar. E é mesmo”, diz ele, numa deixa para Lenine cantar o samba de Zeca, Arlindo Cruz e Acyr Marques.
Sambabook que segue, Maria Rita interpreta o bonito “Alto lá” (de Zeca, Arlindo e Sombrinha), com participação especial de Roberto Marques no trombone. Cantada por Péricles, a faixa 7 é “Talarico, ladrão de mulher”, parceria de Zeca com Sérgio Procópio, filho do saudoso Osmar do Cavaco e caçula da atual formação da Velha Guarda da Portela. A “madrinha” Beth Carvalho, assim chamada por Zeca por ter descoberto seu talento nas rodas do Cacique de Ramos, surge com “Lama nas ruas”, um de seus sambas de maior sucesso, parceria com Almir Guineto. Marcelo D2 canta “Quem é ela?” (Zeca e Dudu Nobre), sobre a história de uma fã que o perseguia onde ele estivesse (“Se eu vou na Mangueira ela vai/Se eu vou na Portela, ela está”): “A gente (ele e Dudu) precisava fazer um samba. Fizemos em 15 minutos”.
O protagonista e seu estafe, liderado pelo diretor artístico Afonso Carvalho, a diretora de vídeo Joana Mazzucchelli e o diretor musical Paulão 7 Cordas , tiveram o cuidado de embaralhar os cantores para que quase nenhum parceiro cantasse seu próprio samba. E a primeira participação de um parceiro aparece na faixa 10, com Sombrinha, que interpreta “Menor abandonado”, composta por Zeca, Pedrinho da Flor e Mauro Diniz – que, numa exceção, participa da gravação, no cavaquinho. A constelação de cantores ganha o reforço de Alcione em “Ter compaixão”, de Zeca, Arlindo Cruz e Marquinhos China. Coisa fina. Diogo Nogueira, que também atuou na engenharia do DVD como supervisor artístico, faz um duo de voz e bandolim com o talentoso Hamilton de Holanda em “Lente de contato”, parceria de Zeca, Jorge Simas e Wanderson. “Depois que o pranto rolar/e a tempestade passar (…)/já é hora de cuidar da embarcação.” Mora na filosofia, como dizia o velho samba de Monsueto e Arnaldo Passos.
A faixa 13 acrescenta à lista de boas surpresas o roqueiro Frejat, que canta a antológica “Brincadeira tem hora”, mais uma parceria de Zeca com Beto Sem Braço. O segundo parceiro de Zeca convocado para o Sambabook, Almir Guineto, é uma das exceções: inscreve-se na lista dos que cantam composição própria. Apresenta “Em nome da alegria”, dele, do anfitrião e de Carlos Senna.
O narrador retorna antes da faixa 15 para contar que é fã do primo Beto Gago, autor, com ele, de “Se eu for falar de tristeza”, interpretada no DVD por Arlindo Cruz. O saudoso xará Sem Braço do primo de Zeca emplaca mais uma na faixa 16: Jorge Ben Jor empresta interpretação singular a “Depois do temporal”. A nova geração da Lapa se faz presente com Nilze Carvalho, que ilumina o palco com seu vestido amarelo e sua voz de pelúcia, em “Já mandei botar dendê” (Zeca, Arlindo Cruz e Maurição). A faixa 18, “SPC” (dele e de Arlindo), é cantada por Dudu Nobre, ex-cavaquinista de Zeca – que lembra, antes de o amigo surgir na tela: “Essa história envolve uma terceira pessoa, mas ela é minha amiga, e eu posso contar. Era também uma namorada que eu tinha. Aonde eu fazia música ela ia e botava pra quebrar. Aí eu disse: “Eu vou lá no banco fazer um esporro, e você vai ser mandada embora. Contei pro Arlindo, e fizemos o samba”.
O desfile de talentos prossegue com Jorge Aragão, que comanda “Termina aqui”, de Zeca, Arlindo e Ratinho. Uma das melhores. Outro baluarte, que também já virou Sambabook, Martinho da Vila vem com sua divisão única no partido alto “Faixa amarela” (Zeca, Jessé Pai, Luiz Carlos e Beto Gago). É antes da faixa 21 que Zeca lembra uma das histórias mais divertidas do DVD, a do nascimento de “Bagaço da laranja”, já antecipada lá em cima. O samba é interpretado aqui pelo rapper Emicida, que, a exemplo da própria Jovelina, acrescenta uns versos e, de certo modo, acaba virando “parceiro”.
A música “São José de Madureira” (Zeca e Beto Sem Braço), mostra que o menino Gabrielzinho do Irajá cresceu. O garoto deficiente visual, que até outro dia mesmo encantava as plateias de Zeca com seu prodígio, agora é homem feito. O sotaque da Bahia retorna com Mariene de Castro, que canta “Lua de Ogum” (parceria com Ratinho). O orixá guerreiro, já reverenciado por Zeca em outros sambas, e do qual é fervoroso devoto, não poderia ficar fora – Saravá Ogum!
Ao escalar a Velha Guarda da sua Portela para cantar, dele, de Monarco e Ratinho, “Falsa alegria”. Humilde, Zeca faz antes uma confissão: “Esse samba eu ouvi e pedi ao Monarco para me deixar botar um finalzinho, para virar parceiro. Um final… um final feliz”. Final feliz também é o do DVD: “Camarão que dorme a onda leva” chega na voz do próprio autor,
recheada com participações de todos os demais convidados. Em gravações separadas e editadas em sequência, todos eles cantam um pedacinho do samba histórico da carreira de Zeca. Histórico por ter sido o seu primeiro gravado – por Beth Carvalho, que descobriu a joia rara em suas idas ao velho Cacique de Ramos.
A faixa bônus – antes dos extras com entrevistas e imagens de bastidores – fecha com tampa de ouro o Sambabook Zeca Pagodinho. Nela, Rildo Hora toca na gaita um pot-pourri da obra de Zeca, acompanhado da Orquestra Furiosa, regida pelo maestro Nailor Proveta. Sumo puro de laranja. Salve Zeca!